Just give it a chance
Prólogo
“Bom dia! São seis horas e trinta e dois minutos. Londres desperta ao som da BBC News.”
A voz do locutor da rádio invadiu meus ouvidos, despertando-me imediatamente. Me virei na cama, preguiçosa, apertando minhas cobertas quentinhas contra o meu corpo. Ainda sinto que um dia a preguiça me mata. Se meu despertador fosse um simples relógio, com certeza eu o programaria para despertar só daqui a 5 minutos. Mas ele era um rádio, um rádio escandaloso e chato, que toda manhã, com a mesma voz, tirava-me dos meus sonhos mais profundos.
Com muita má vontade, me levantei, indo direto para o banheiro. Parei em frente ao espelho, abrindo-o e tirando de lá a escova de dentes e a pasta. Coloquei o creme dental sobre a escova e fechei o espelho, colocando a escova na boca e escovando meus dentes ,observando meu reflexo desleixado no espelho. Meus cabelos caíam livremente pelo meu ombro e estavam todos bagunçados; meus olhos, caídos e cansados. Eu estava horrível, literalmente. Depois de escovar os dentes, lavei meu rosto com delicadeza e comecei a despir meu pijama, pronta para tomar um banho. Completamente nua, entrei no box e deixei a água morna cair sobre meus ombros e nuca, logo me colocando inteira debaixo da ducha. Lavei meus cabelos com delicadeza, sentindo o cheiro bom do meu xampu. Percebendo que estava demorando muito, passei rapidamente o condicionador e enxagüei, desliguei o chuveiro e saí depressa do box, torcendo meus cabelos e me enrolando na minha toalha, tremendo de frio.
Fui até meu quarto, batendo o queixo e sentindo os arrepios percorrerem meu corpo. Estava muito frio aquela manhã, mesmo de janelas fechadas eu podia sentir. Abri meu armário, peguei minhas roupas que já ficavam separadas e a vesti com rapidez, quase não suportando o frio. Vesti meu uniforme de trabalho: um suéter branco, calças brancas e sapatos brancos. Faltava meu jaleco, que eu colocava na bolsa e vestia assim que chegava no trabalho. Olhei-me no espelho atrás da porta do guarda-roupa. Não via nada de diferente em mim, todos os dias eu me vestia do mesmo jeito, não havia nada que se avaliar alí. Peguei uma pequena presilhinha brilhante e fiz um coque delicado no meu cabelo. Completei meu visual com delicados brincos de pérolas e com uma maquiagem leve. Visual conferido, fui arrumar minha cama e o banheiro.
Terminadas as tarefas, só me restava tomar café. Fui até minha sala-cozinha e comecei a preparar minha refeição matinal. Para não ficar no silêncio, liguei o outro rádio que havia ali. Tocava Wiseman, do James Blunt, e fiquei feliz pois adorava as músicas dele. Fiz as torradas e o capuccino em um segundo, me sentando para apreciar o café da manhã. Olhei para o relógio na parede, que marcava 7:15 da manhã. Me assustei com o horário e quase engoli o resto do meu café. Fui até meu quarto pegar minha bolsa e escovar os dentes de novo. Saí apressada de casa, quase esqueci de desligar o rádio e fechar a porta. Fui passando batom enquanto descia as escadas e um vento frio me queimou o rosto assim que saí na rua.
Andei a passos largos até o metrô, que não ficava muito distante do meu prédio. Entrei na estação e fiquei alguns minutos esperando por um trem que não viesse tão lotado. Quando consegui entrar em um, iria me sentar em um assento, mas dei preferência a uma senhora de cabelos muito grisalhos e fofos como algodão. Ela se sentou, agradecendo e eu sorri, me segurando em um dos apoios do metrô. Só mais sete estações e eu desceria praticamente na porta do meu trabalho. Há anos fazia o mesmo caminho.
Desci, como sempre, na estação de metro de Camdem Town. A saída dela era na esquina do lugar aonde eu trabalhava, que ficava em uma grande avenida. Como sempre, fui andando até meu destino, indo contra o fluxo de pessoas que transitavam por alí. Parei de andar somente quando cheguei na frente de um grande prédio branco, de vidros verdes e vistosos. Entrei pela entrada lateral, de funcionários, saindo direto no refeitório e pátio dos empregados. Logo que pisei ali, sorrindo, , minha companheira de trabalho e amiga de anos veio me cumprimentar com um abraço sincero.
-Bom dia!-ela me desejou-Já tomou café?
-Bom dia! Já tomei café sim, hoje não vou te fazer companhia!-respondi a ela, sorrindo e me dirigindo até o vestiário dos funcionários. Deixei minha bolsa no armário, e que ainda estava com a dela, fez o mesmo. Tiramos nossos jalecos e os vestimos, saindo da saleta e voltando ao refeitório. se sentou em uma das mesas do mesmo, aonde havia café e vários pãezinhos para se comer de café da manhã.
-Tem certeza que não quer comer nada, ?
-Não ...Eu acho que já vou subir para a enfermaria, hoje é dia de brincar com as crianças e também tenho alguns adultos para cuidar...-falei, fechando alguns botões do meu jaleco-Depois a gente se vê, amor!-mandei beijinhos para ela que retribuiu e rumei até o elevador, que ficava do outro lado do refeitório. Entrei nele, cumprimentando a todos meus companheiros de trabalho que também estavam ali dentro.
Fazia sete anos que eu trabalhava no Instituto Nacional de Combate ao Câncer de Londres. Aquele hospital era a minha casa. Meus pacientes e colegas de profissão eram como a minha família. Meus dias se resumiam a cuidar de todas aquelas pessoas, fossem adultos ou crianças; cada perda, era uma ferida enorme do meu coração; cada vitória, uma alegria incomparável. Eu não era médica, era enfermeira padrão. Ficava ao lado dos guerreiros todos os dias, vendo cada passo que eles davam, fossem eles pra frente ou pra trás, na grande batalha que travavam contra seus inimigos. Sim, essas pessoas pra mim não são doentes; são guerreiros. Nunca estive no meio de pessoas tão corajosas como as que eu cuido. Por isso, não há motivo para que eles sejam chamados de doentes. Nenhum doente luta como eles lutam.
O elevador parou no andar da enfermaria. Era ali que eu ficaria o dia todo, cuidando das emergências.
-Bom dia flor do dia!- , meu super amigo, que também ficaria de plantão aquele dia ali comigo, me cumprimentou com um abraço apertado e um beijo na bochecha. Era loiro de olhos azuis como os mares gregos, não muito alto e malhado, resumindo: um Deus grego. Se eu dissesse que nunca me senti atraída por ele, seria a mais pura mentira, pois é o tipo de homem que nenhuma mulher consegue desgrudar o olho.
-Bom dia chuchu! Tá feliz hoje hein?-não deixei de notar o sorriso enorme que ele trazia estampado na sua face. –Teve uma cantada bem sucedida com a ?
-E quem disse que eu estou interessado na ? Pelo amor de Deus, ! Você sabe qual é a fruta que eu gosto!-ele fez uma voz extremamente afeminada e gestos estranhos.
-Você me assusta, .
-Brincadeira!-ele desmentiu, andando abraçado de lado comigo até um leito-Bem...Pode ter ser sido isso mesmo.
-Vocês se amam!-eu disse. Sempre torci para que o romance dos dois desse certo, mas isso nunca acontecia-Por que não se dão uma chance?
- ...Já percebeu que você fala isso todos os dias, meu amor?- Darrien falou debochadamente.
-Vou falar até vocês se ajeitarem!
-Então vai ficar falando até os seus dias acabarem, chuchu!-ele me deu um beijo na bochecha e saiu andando até outro leito. Abri as cortinas do leito em que estava parada, encontrando Lucy, uma menininha de apenas oito aninhos de idade que ficava todos os dias na enfermaria, fazendo quimioterapia.
-Como vai você, Lucy?-perguntei carinhosamente a ela.
-Estou bem , e você?-Lucy era a coisinha mais fofa daquele mundo,mesmo de camisola branca e sem nenhum fio de cabelo, seus olhos verdes como duas grandes esmeraldas cintilavam sempre, mesmo que a quimioterapia acabasse com sua vitalidade.
-Melhor impossível, querida! Está sentindo dores hoje?-me sentei ao lado dela na cama, dando minha mão para que ela segurasse.
-Não, eu estou bem! Hoje a moça que colocou a agulha não me machucou tanto!-a menininha me respondeu sorrindo. Retribuí com a maior sinceridade do mundo.
-Na quinta vou levar vocês da ala infantil para assistir o teatro dos palhaços, você vai assistir, não vai?
-Claro que eu vou! Eu adoro os palhaços...E ah, você está muito bonita hoje, !-sorri mais largamente ainda. Era por isso que eu amava cada um dos meus pacientes.
-Obrigada meu amor!-dei um beijinho na mão fraca dela.
- ... !-escutei a voz da chamar atrás de mim, um pouco nervosa. Me virei para vê-la, sem soltar a mão de Lucy-Tem uma emergência chegando. Você vai ter que atender!
-Tudo bem...Lucy, o te leva pro seu quarto depois, ok? E confere se tudo saiu certinho!-sorri, acenando para ela e indo direto para a porta de emergência da enfermaria. Assim que parei na frente dela, outros enfermeiros entraram empurrando uma maca, aonde um homem encontrava-se tendo convulsões graves. Os médicos haviam colocado uma máscara de respiração nele, mas a mesma estava se soltando, devido aos movimentos bruscos e involuntários que aconteciam no corpo dele. Conduzi o resgate até uma maca desocupada, mas só depois de muito esforço conseguiram colocá-lo em cima dela. Rapidamente, peguei uma injeção e comecei a tentar aplicar nele, enquanto os outros enfermeiros tentavam segurá-lo. Depois de várias tentativas, consegui, e o efeito começou a surtir. O moço parou de ter as convulsões quase que imediatamente, e ficou com os olhos abertos, girando sem foco. Sinais típicos de uma lesão cerebral, que provavelmente, devia ser causada por um carcinoma no cérebro. Olhei piedosamente para o paciente; dispensei os enfermeiros, e preparei um soro com analgésicos fortes para serem aplicados na veia. Observei os olhos dele fecharem aos poucos, ainda confusos. Ele tinha os olhos espantosamente . Talvez os mais que eu já vi na minha vida. Fiquei perdida por alguns momentos, até que ele fechou os olhos de vez. Dei as costas para o leito dele, mas não pude deixar de olhar para trás de novo. Pode ser besteira, mas eu havia sentido que aquele paciente iria ser especial.
E aí? Me falem o que vocês acharam, por favor *-*
Beeeijos xx
